Desde pequenina me dizem que tenho "facilidade 'de' escrever". Mal sabem, coitados, a dificuldade que é colocar em palavras todo o turbilhão de pensamentos, ideias e emoções. Acho que eu tenho mesmo é facilidade em sentir, seguida de uma problemática imensa que é organizar esses sentimentos. Tem horas que a gente sente que precisa escrever, sabe? Mas a respeito de quê? Tantas coisas tentando transbordar ao mesmo tempo que forma-se uma cachoeira turbulenta, daquelas que é impossível ver além da espuma d'água. E dali, nada sai, nada flui. Dizem então que poetas são bons fingidores, do que eu também discordo. A musicalidade dos versos só se cria se o coração tiver cheio, ou vazando de tanta dor. E todo o caos é necessário para que as palavras fiquem embaralhadas na minha mente, até que em um rompante eu consiga parar e, sem nem sequer pensar, despejá-las de uma vez em uma folha branca. Ufa! Sinto-me aliviada, finalmente. E um vão silencioso imediatamente se forma. Ca...
20 dias se passaram desde que perdi tanto que nem saberia mensurar: possibilidades infinitas - como seria? o que faria? como sorriria? Uma vida inteira que jamais poderei responder. Procurei apoio na sororidade plástica e vazia, gritei a dor a outras mulheres e elas não me acolheram. Ouvi até que "seria melhor assim", veja só, quem pode decidir por mim o que é melhor? Insensível, cruel comentário sobre alguém que tão cedo se foi. E doeu mais ainda, sangrei de corpo e alma sua partida de forma silenciosa. Colo de mãe não tive, apenas o velho travesseiro para absorver as lágrimas. Faltaram abraços confortantes, palavras de carinho, uma simples companhia. Nada disso tive. Sua perda tão repentina me fez entender que a minha solidão tem que ser também solitude. Me mostrou uma força que eu não sabia que tinha para tentar salvar todo o resto da nossa família enquanto você ia embora. Me fez entender que sou como o sol e como o horizonte - distantes do amor, mas admirados por muitos...