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Caos e calma

Desde pequenina me dizem que tenho "facilidade 'de' escrever". Mal sabem, coitados, a dificuldade que é colocar em palavras todo o turbilhão de pensamentos, ideias e emoções. Acho que eu tenho mesmo é facilidade em sentir, seguida de uma problemática imensa que é organizar esses sentimentos. Tem horas que a gente sente que precisa escrever, sabe? Mas a respeito de quê? Tantas coisas tentando transbordar ao mesmo tempo que forma-se uma cachoeira turbulenta, daquelas que é impossível ver além da espuma d'água. E dali, nada sai, nada flui. Dizem então que poetas são bons fingidores, do que eu também discordo. A musicalidade dos versos só se cria se o coração tiver cheio, ou vazando de tanta dor. E todo o caos é necessário para que as palavras fiquem embaralhadas na minha mente, até que em um rompante eu consiga parar e, sem nem sequer pensar, despejá-las de uma vez em uma folha branca. Ufa! Sinto-me aliviada, finalmente. E um vão silencioso imediatamente se forma. Ca...
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Ao George, que nunca veio ao mundo

  20 dias se passaram desde que perdi tanto que nem saberia mensurar: possibilidades infinitas - como seria? o que faria? como sorriria? Uma vida inteira que jamais poderei responder. Procurei apoio na sororidade plástica e vazia, gritei a dor a outras mulheres e elas não me acolheram. Ouvi até que "seria melhor assim", veja só, quem pode decidir por mim o que é melhor? Insensível, cruel comentário sobre alguém que tão cedo se foi. E doeu mais ainda, sangrei de corpo e alma sua partida de forma silenciosa. Colo de mãe não tive, apenas o velho travesseiro para absorver as lágrimas. Faltaram abraços confortantes, palavras de carinho, uma simples companhia. Nada disso tive. Sua perda tão repentina me fez entender que a minha solidão tem que ser também solitude. Me mostrou uma força que eu não sabia que tinha para tentar salvar todo o resto da nossa família enquanto você ia embora. Me fez entender que sou como o sol e como o horizonte - distantes do amor, mas admirados por muitos...

Leitura - "Friends, Lovers and the Big Terrible Thing", Matthew Perry

  Na dica literária de hoje trago um livro que poderia resumir em uma frase, ou melhor, em uma pergunta: “Could it BE any stronger?” Se você entendeu a referência dessa pergunta, com certeza está familiarizado com o personagem Chandler Bing, de Friends. Se não souber de quem estou falando e teve acesso à internet no último ano, decerto leu ou viu algo sobre um ator de Friends que infelizmente nos deixou. Este ator é Matthew Perry, autor deste livro autobiográfico que mostrarei aqui hoje. Sendo fã de Friends, essa leitura lhe mostrará o quanto do Matthew estava presente no Chandler e vice-versa. O ator deu vida e muito de sua própria personalidade ao personagem. Neste livro, Matthew começa falando de sua infância, do divórcio dos pais e como isso impactou sua formação e desenvolvimento comportamental, acarretando na sua insegurança em relacionamentos amorosos, seu medo de solidão e de como fazer piadas ou dizer coisas engraçadas acabou se tornando um mecanismo de autodefesa perant...

Ah, a solidão

  A solidão é aquela amiga bipolar: às vezes é insuportável ficar no mesmo quarto que ela, outras vocês querem ficar a sós, trancados a chave. Ela pode ser o travesseiro mais macio e reconfortante para absorver as lágrimas choradas em desespero e pode também te fazer chorar até doer a cabeça e nenhum travesseiro ser confortável o suficiente para repousar. Ela te faz perceber que é capaz de ser sua própria companhia e deixá-lo em uma festa de silêncio inebriante. Outras vezes ela traz para essa mesma festa alguns convidados indesejados: a angústia, o medo, a ansiedade e a insegurança. Esses penetras não costumam ir embora tão  cedo, nem mesmo com o apagar das luzes. Ela faz com que consiga compreender que você mesmo é seu melhor amigo enquanto segura suas mãos e te olha nos olhos. Logo depois, ainda segurando suas mãos, te joga em um abismo negro de pensamentos e lembranças, de todos aqueles que um dia disseram te amar ou estarem sempre ali contigo. A solidão te lembra qu...

In Memorian - Tia Lenir

1 de abril de 2024 - Poderia mesmo ser o dia de uma mentira Não é justo! Digo a mim mesma. Mas o que é justiça, neste caso? Culpamos os médicos, o destino, a sorte, a vida em si, e fato é que nada nem ninguém pode ser responsabilizado pela injustiça de morrer lentamente, pela agonia de sofrer e perder-se de si mesmo. Nascemos e crescemos conscientes de que um dia iremos partir. Vivemos todos os dias que nos são permitidos, morremos apenas um dia. Bem, alguns de nós. Muitos são fadados a morrer diariamente durante semanas, meses, anos até que o destino tenha misericórdia em levá-los. A sensação de impotência em vermos alguém desaparecer diante dos nossos olhos, mesmo com o coração batendo, é o mais amargo fel. Alguém que sempre fora a expressão da alegria hoje não consegue sequer esboçar um sorriso. Paredes de uma casa que contam histórias de dias, meses e anos de vida parecem engolir silenciosamente aquele corpo que ainda humano, se decompõe pouco a pouco em apenas uma casca vazia. A m...

Petricor

  Não foram poucas as vezes em que, no meio de um dia ensolarado, me entorpeci pensando no porquê da chuva ser tão inspiradora para escrever. Como naqueles filmes cafonas de vampiros, o sol forte parecia desfazer quaisquer ideias, derreter os pensamentos de forma tão rápida que nem chegassem a tocar o papel. Também outras tantas vezes me dei conta do quanto já escrevi sobre a chuva em si: misturada em lágrimas, lavando a alma ou simplesmente admirando a beleza de tal fenômeno, essa temática sempre foi recorrente aos meus devaneios. Cômico dizer, dada esta introdução, que escrevo isto enquanto chove. Poderia ser mais poético? Coincidência factual ou não, aqui estou eu, ouvindo as gotas gigantes chocarem-se contra o concreto do chão do quintal, levantando o familiar cheiro de terra molhada, mesmo que terra, em si, não exista tão perto. Microbiologicamente, diriam que o petricor é causado por bactérias que vivem no solo e esporulam quando tocadas pela água.  Apesar de saber trata...

Você lembra, lembra?

Toda vez que ouço Roupa Nova, lembro do meu pai. Não quero dizer com isso que ele já tenha partido. As lembranças são longínquas, da minha infância ou adolescência, quando eu ainda achava a banda um tanto brega para assumir em público que ouvia. Há nestas memórias  embaralhadas a imagem de uma fita cassete com músicas que meu pai havia escolhido a dedo e mandado gravar para dar de presente a minha mãe.  Um gesto romântico de alguém que sempre teve dificuldades em expressar seus sentimentos, sendo por vezes considerado como um bruto. Ele é a típica figura do homem rústico, simples, mas com o coração mais derretido que a margarina que esqueci em cima da mesa desde as 6 da manhã. Como bem delineado no verso da música Seguindo no trem azul, "não faz mal não ser compositor, se o amor valeu eu empresto um verso meu pra você dizer", acredito que meu pai tentou usar da música para expressar o que ele jamais conseguiria por si só.  Raras foram as vezes, aliás, que peguei meu pai...