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Petricor


 

Não foram poucas as vezes em que, no meio de um dia ensolarado, me entorpeci pensando no porquê da chuva ser tão inspiradora para escrever. Como naqueles filmes cafonas de vampiros, o sol forte parecia desfazer quaisquer ideias, derreter os pensamentos de forma tão rápida que nem chegassem a tocar o papel.

Também outras tantas vezes me dei conta do quanto já escrevi sobre a chuva em si: misturada em lágrimas, lavando a alma ou simplesmente admirando a beleza de tal fenômeno, essa temática sempre foi recorrente aos meus devaneios.
Cômico dizer, dada esta introdução, que escrevo isto enquanto chove. Poderia ser mais poético? Coincidência factual ou não, aqui estou eu, ouvindo as gotas gigantes chocarem-se contra o concreto do chão do quintal, levantando o familiar cheiro de terra molhada, mesmo que terra, em si, não exista tão perto.
Microbiologicamente, diriam que o petricor é causado por bactérias que vivem no solo e esporulam quando tocadas pela água.  Apesar de saber tratar-se de um fato, quando sinto o aroma daquele solo recém banhado, quero somente acreditar que tal cheiro é um perfume delicado que a natureza exala para mostrar-se ali, viva.
E como Keats já bem sabia, há na natureza uma fonte infindável de inspiração e conforto para escrever. Há, portanto, poesia. As mais belas delas, inspiradas por ou pela chuva, não importa seu enredo.
Quando o aguaceiro se intensifica, tudo que podemos ouvir é um chiado alto, retumbante, que não deixa espaço para outro som, nem sequer o dos pensamentos corriqueiros.
Como um rádio fora de sintonia, no último volume, cala-se a voz da razão e o coração começa a falar, a expurgar tudo que estava preso ali em inúmeros dias de sol em que a correnteza das emoções não conseguia fluir.
Papel e caneta passam a ser uma usina hidroelétrica, canalizando e transformando o temporal interior em palavras organizadas pela sensibilidade e sensatez de quem entende que precisa deixar esvair-se em letras tão rápido quanto a chuva escorre pelos ralos e bueiros.
Há uma urgência em despir-se das mazelas morais e libertar-se em versos.
  • ão foram poucas as vezes em que, no meio de um dia ensolarado, me entorpeci pensando no porquê da chuva ser tão inspiradora para escrever. Como naqueles filmes cafonas de vampiros, o sol forte parecia desfazer quaisquer ideias, derreter os pensamentos de forma tão rápida que nem chegassem a tocar o papel.
    Também outras tantas vezes me dei conta do quanto já escrevi sobre a chuva em si: misturada em lágrimas, lavando a alma ou simplesmente admirando a beleza de tal fenômeno, essa temática sempre foi recorrente aos meus devaneios.
    Cômico dizer, dada esta introdução, que escrevo isto enquanto chove. Poderia ser mais poético? Coincidência factual ou não, aqui estou eu, ouvindo as gotas gigantes chocarem-se contra o concreto do chão do quintal, levantando o familiar cheiro de terra molhada, mesmo que terra, em si, não exista tão perto.
    Microbiologicamente, diriam que o petricor é causado por bactérias que vivem no solo e esporulam quando tocadas pela água.  Apesar de saber tratar-se de um fato, quando sinto o aroma daquele solo recém banhado, quero somente acreditar que tal cheiro é um perfume delicado que a natureza exala para mostrar-se ali, viva.
    E como Keats já bem sabia, há na natureza uma fonte infindável de inspiração e conforto para escrever. Há, portanto, poesia. As mais belas delas, inspiradas por ou pela chuva, não importa seu enredo.
    Quando o aguaceiro se intensifica, tudo que podemos ouvir é um chiado alto, retumbante, que não deixa espaço para outro som, nem sequer o dos pensamentos corriqueiros.
    Como um rádio fora de sintonia, no último volume, cala-se a voz da razão e o coração começa a falar, a expurgar tudo que estava preso ali em inúmeros dias de sol em que a correnteza das emoções não conseguia fluir.
    Papel e caneta passam a ser uma usina hidroelétrica, canalizando e transformando o temporal interior em palavras organizadas pela sensibilidade e sensatez de quem entende que precisa deixar esvair-se em letras tão rápido quanto a chuva escorre pelos ralos e bueiros.
    Há uma urgência em despir-se das mazelas morais e libertar-se em versos.
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  • ão foram poucas as vezes em que, no meio de um dia ensolarado, me entorpeci pensando no porquê da chuva ser tão inspiradora para escrever. Como naqueles filmes cafonas de vampiros, o sol forte parecia desfazer quaisquer ideias, derreter os pensamentos de forma tão rápida que nem chegassem a tocar o papel.
    Também outras tantas vezes me dei conta do quanto já escrevi sobre a chuva em si: misturada em lágrimas, lavando a alma ou simplesmente admirando a beleza de tal fenômeno, essa temática sempre foi recorrente aos meus devaneios.
    Cômico dizer, dada esta introdução, que escrevo isto enquanto chove. Poderia ser mais poético? Coincidência factual ou não, aqui estou eu, ouvindo as gotas gigantes chocarem-se contra o concreto do chão do quintal, levantando o familiar cheiro de terra molhada, mesmo que terra, em si, não exista tão perto.
    Microbiologicamente, diriam que o petricor é causado por bactérias que vivem no solo e esporulam quando tocadas pela água.  Apesar de saber tratar-se de um fato, quando sinto o aroma daquele solo recém banhado, quero somente acreditar que tal cheiro é um perfume delicado que a natureza exala para mostrar-se ali, viva.
    E como Keats já bem sabia, há na natureza uma fonte infindável de inspiração e conforto para escrever. Há, portanto, poesia. As mais belas delas, inspiradas por ou pela chuva, não importa seu enredo.
    Quando o aguaceiro se intensifica, tudo que podemos ouvir é um chiado alto, retumbante, que não deixa espaço para outro som, nem sequer o dos pensamentos corriqueiros.
    Como um rádio fora de sintonia, no último volume, cala-se a voz da razão e o coração começa a falar, a expurgar tudo que estava preso ali em inúmeros dias de sol em que a correnteza das emoções não conseguia fluir.
    Papel e caneta passam a ser uma usina hidroelétrica, canalizando e transformando o temporal interior em palavras organizadas pela sensibilidade e sensatez de quem entende que precisa deixar esvair-se em letras tão rápido quanto a chuva escorre pelos ralos e bueiros.
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