Toda vez que ouço Roupa Nova,
lembro do meu pai. Não quero dizer com isso que ele já tenha partido. As
lembranças são longínquas, da minha infância ou adolescência, quando eu ainda
achava a banda um tanto brega para assumir em público que ouvia. Há nestas
memórias embaralhadas a imagem de uma fita cassete com músicas que meu
pai havia escolhido a dedo e mandado gravar para dar de presente a minha
mãe. Um gesto romântico de alguém que sempre teve dificuldades em
expressar seus sentimentos, sendo por vezes considerado como um bruto. Ele é a
típica figura do homem rústico, simples, mas com o coração mais derretido que a
margarina que esqueci em cima da mesa desde as 6 da manhã.
Como bem delineado no verso da
música Seguindo no trem azul, "não faz mal não ser compositor, se o amor
valeu eu empresto um verso meu pra você dizer", acredito que meu pai
tentou usar da música para expressar o que ele jamais conseguiria por si
só. Raras foram as vezes, aliás, que peguei meu pai ouvindo música,
sabe? Ouvindo de verdade, prestando atenção na letra ou até cantando junto. A
maioria das poucas vezes em que vi fazê-lo, no entanto, ele estava ouvindo
Roupa Nova. Posso jurar que vi lágrimas em seus olhos enquanto observava esta
cena, e ele cuidadosamente disfarçaria e começaria falar sobre qualquer outra
coisa, como se quisesse mostrar que ele não estava sucumbindo à emoção da
melodia, que ele era forte demais para aquilo. Sorrateiramente ele desligava ou
baixava o volume do aparelho de som, tirando o foco daquele ato tão
vulnerabilizante para um homem tão forte.
Ah, pai, mal você sabe que os
mais fortes são aqueles que choram, os que sentem, os que ouvem além da música
- mas você foi condicionado sua vida toda a esconder isso: você é homem, você é
o único filho homem, você tem que trabalhar, você tem que cuidar da mãe, das
irmãs, da mulher, das filhas. Não há tempo para essa "frescura"
de música e choro, né?
Hoje ele não tem mais que cuidar
de ninguém e ainda assim sei que não se da ao luxo de conectar-se com suas
emoções. Uma das minhas maiores vontades é levar meu pai em um show do Roupa
Nova, comprando ingresso para uma mesa que fique meio escondida, cantar junto
com ele e chorar na frente dele quando me emocionar. Quem sabe dessa forma ele
entenda que está tudo bem sentir... afinal, "Se faz sorrir ou faz chorar,
o coração é quem sabe!".

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