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In Memorian - Tia Lenir

1 de abril de 2024 - Poderia mesmo ser o dia de uma mentira


Não é justo! Digo a mim mesma. Mas o que é justiça, neste caso? Culpamos os médicos, o destino, a sorte, a vida em si, e fato é que nada nem ninguém pode ser responsabilizado pela injustiça de morrer lentamente, pela agonia de sofrer e perder-se de si mesmo.

Nascemos e crescemos conscientes de que um dia iremos partir. Vivemos todos os dias que nos são permitidos, morremos apenas um dia. Bem, alguns de nós. Muitos são fadados a morrer diariamente durante semanas, meses, anos até que o destino tenha misericórdia em levá-los.

A sensação de impotência em vermos alguém desaparecer diante dos nossos olhos, mesmo com o coração batendo, é o mais amargo fel. Alguém que sempre fora a expressão da alegria hoje não consegue sequer esboçar um sorriso.

Paredes de uma casa que contam histórias de dias, meses e anos de vida parecem engolir silenciosamente aquele corpo que ainda humano, se decompõe pouco a pouco em apenas uma casca vazia. A mente, antes sã, já não se faz mais presente. Abandonou o cérebro e disse adeus antes de todo o resto decidir ir embora. As recordações já não lhe são familiares, as fotos emolduradas perto do televisor já causam confusão sobre quem é quem.

A casa ainda grita por vida, deixando escancarados os lençóis floridos de cores claras e vibrantes, o sofá novíssimo de cor azul royal, os batons e perfumes meticulosamente arrumados em cima de uma cômoda, o caderno de anotações deixado sobre uma banqueta marca as despesas fixas dos próximos meses, o pássaro azul que canta feliz no quintal alheio ao que lhe cerca. Tudo implora por vida, anseia para que o fluxo da rotina continue. Veem aquele corpo antes igualmente tomado da mais pura vitalidade agora desleixado no sofá. Que contraste! Seu esqueleto agora quase realmente esquelético jamais se permitiria ficar ali, inerte, se a consciência não tivesse lhe abandonado quase que por completo.

Lapsos de memória vêm e vão tão rapidamente quanto a respiração já ofegante. Seria uma benção ou uma maldição não ter a percepção do que realmente está acontecendo consigo? Esta é uma pergunta que não sei responder, e talvez nunca saberei.

É preciso que eu seja âncora nesse momento, que fique firme, que dê ânimo e forças para que aquela consciência não escape totalmente dali. E quão difícil é conciliar essa força com a fraqueza que o luto já impõe sobre minha mente. Não, não houve óbito ainda. A iminência dele, no entanto, é precisa. Em um dia, duas semanas ou alguns meses, não há como saber.
Percebo que ver a mente se esvair já é uma despedida parcelada, lenta e dolorosa. Dizem que é por causa da medicação, que é o tumor em si, que são as toxinas. Nada disso é relevante quando tudo que se pode ver é que aquela pessoa antes tão vívida não está mais de fato ali.

15 de abril de 2024

Duas semanas depois, como numa mórbida previsão da minha escrita prévia, a mais temida notícia chegou, sua partida foi chorada pelas gotas de chuva que caíram, certeiras, no momento em que sua alma se foi. Trouxeram à memória as tantas vezes que, com alegria, você comemorava a chuva com fotos, capturando a beleza natural das águas.

E como você via beleza em tudo, no simples viver, nas flores, em um entardecer alaranjado, nas nuvens fazendo formas no céu. E o mundo parecia responder aos seus sorrisos e suas gargalhadas, agraciando-a com o mais bondoso coração.

Uma das poucas memórias que tenho de quando era bem pequena, aliás, é de estarmos na casa da vó brincando com um guarda-chuvas e rindo de doer a barriga, você fazendo arte como a criança grande que internamente sempre fora. Essa leveza era sua essência, por mais triste que pudesse estar, fazia todos ao redor rirem. E é isso que já escutei de dezenas de pessoas em seu funeral: "ELA ERA TÃO ALEGRE!"

Hoje, ao entrar em sua casa, tudo estava perfeitamente arrumado, mas cada objeto parecia enlutado com sua ausência. Todas as cores daqueles quadros, tapetes e toalhas pareciam sem vida, por mais vibrantes que fossem.

As contas do próximo mês vencerão, suas gatinhas esperarão você voltar, o jardim talvez nunca mais seja tão florido quanto você fazia sê-lo, as roupas novas ainda na sacola de compras não serão usadas. E pouco a pouco, com a mágica que só o tempo faz, essa tristeza irá desaparecer, deixando espaço apenas para memórias de todos os momentos bons que aquelas paredes já acalentaram.

Na geladeira, noto de relance 3 calendários fixados com imã que marcavam ainda o mês de janeiro. Eu compreendi, com uma dor lacerante, que não trocar aquelas folhas com o adiantar dos meses já era um adeus.

Que seu sorriso seja, pra sempre, o mais espontâneo e sincero na memória de quem te ama. 




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