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Uma vitrola, um disco nas mãos

 



Depois de quase 17 anos eu pude ouvir novamente o primeiro disco que comprei, lá em 2005, com o suado (e mísero) dinheirinho que ganhava como babá. Não é um vinil raro, no entanto ele representa a resiliência e a perseverança de ter ficado guardado todo esse tempo, na esperança de ser riscado por uma agulha outra vez. Parece insignificante tecer um texto acerca de um disco e uma vitrola, veja só, nenhum deles são caros ou quiçá raros. Mas estas linhas não falam apenas sobre os objetos em si.

Eu já ouvi esse disco antes, mais precisamente em 2007 pela última vez até então, no meu saudoso rádio toca discos que, até hoje, não sei onde foi parar. Para mim, era um conforto, um hobby, um fascínio - só que assim como eu, aos olhos de outros, meu rádio era um estorvo, um trambolho, ocupava um espaço que incomodava, que não poderia existir.

Um triste dia, ao chegar em casa, ele havia ido embora, deixando um vazio inestimável em mim e um alívio arrogante em quem não o queria mais lá. Meu apreço por ele não era suficiente para que permanecesse, e então, anos depois, descobri que o que faltava para ele ter ficado era respeito por mim, e que eu também deveria partir.

Deste modo eu fiz, entretanto não estava totalmente aclarado em minha consciência a necessidade de respeito. Deixei o mesmo acontecer em um relacionamento, onde não só meus discos eram motivos de piada, como nem sequer o café que eu gostava de tomar poderia manter em casa para não deixar cheiros. Ali também não pertenci, dali também voei.

E na alçada dos voos da vida pousei, por acaso, em um lugar corriqueiro, ainda assim havia algo diferente: não riam mais dos meus discos, tentavam entendê-los. Não reclamavam mais do meu café, passaram a apreciá-lo ainda mais que eu. Não gostavam da minha coleção de canecas, todavia me ajudam a arrumá-las até hoje na prateleira, deixando-as expostas.

E eu finalmente tenho uma vitrola e posso ouvir o primeiro disco que comprei novamente, sem preocupar-me em estar sendo um estorvo - nem a vitrola, nem eu. Ela já ganhou até seu próprio cantinho na sala, e eu tenho meu lugar, o amor e principalmente o respeito ocupando um vazio que tardei a entender que existia.

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